A intervenção no Ueno Bank, um dos maiores bancos digitais do Paraguai, provocou uma onda de preocupação entre clientes, dificuldades de acesso aos aplicativos e filas em agências para a retirada de dinheiro. O episódio, registrado nesta quarta-feira (4), também desencadeou uma crise política no país, com pedidos de impeachment contra o presidente Santiago Peña.
A situação ganhou proporção depois que o Banco Central do Paraguai determinou, em 2 de novembro, a abertura de um processo de resolução da instituição financeira. A decisão foi motivada por problemas graves de solvência: após ajustes nos demonstrativos financeiros, o índice de capital do banco ficou abaixo da metade do mínimo exigido pela legislação. O Ueno atende aproximadamente 2,9 milhões de clientes, em um país com cerca de 6,1 milhões de habitantes.
O bloqueio das operações e a dificuldade de movimentar recursos provocaram apreensão entre correntistas. A crise também atingiu pagamentos, aposentadorias e atividades comerciais. O banco administrava aproximadamente US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo valores ligados a fundos estatais.
A repercussão política aumentou devido às antigas relações empresariais de Santiago Peña com o grupo proprietário da instituição. O presidente paraguaio foi sócio do conglomerado até março de 2025. Em meio às críticas sobre a fiscalização do banco, Peña solicitou a saída do então presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, que apresentou sua renúncia.
Para tentar reduzir os impactos sobre os clientes, o governo anunciou medidas para acelerar o pagamento das garantias aos depositantes. O Banco Central informou que os recursos serão liberados por meio do Fundo de Garantia de Depósitos, com cobertura de até 75 salários mínimos por pessoa ou empresa, respeitadas as regras do mecanismo. Em comunicado divulgado nesta terça-feira (3), a autoridade monetária também anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis aos clientes elegíveis.
Enquanto isso, o Ministério Público avançou nas investigações. Nesta quarta-feira (4), 27 pessoas ligadas ao Ueno Bank e a empresas relacionadas foram formalmente imputadas por suspeitas de irregularidades financeiras. Entre os crimes investigados estão conduta indevida em situações de crise, lesão de confiança, tentativa de estelionato e descumprimento da obrigação de manter corretamente os registros comerciais.
Segundo a investigação, operações realizadas entre 2025 e 2026 teriam envolvido empréstimos e limites de crédito concedidos a empresas relacionadas ao grupo econômico, sem garantias suficientes e com possíveis falhas na avaliação da capacidade de pagamento. Os valores pendentes das operações examinadas ultrapassam US$ 166 milhões, além de aproximadamente 343 bilhões de guaranis. A promotoria pediu prisão preventiva para um dos principais investigados e medidas cautelares para os demais.
No campo político, a crise também chegou ao Congresso. Parlamentares da oposição apresentaram um pedido de impeachment contra Santiago Peña e o vice-presidente do país. As acusações mencionam possível conflito de interesses, interferência na fiscalização financeira, favorecimento de empresas ligadas ao banco e suspeitas envolvendo recursos públicos e fundos previdenciários.
O caso ainda está em investigação, e as acusações apresentadas pelo Ministério Público deverão ser analisadas pela Justiça. A crise do Ueno Bank se tornou um dos maiores desafios políticos e financeiros enfrentados pelo governo paraguaio.
A mobilização foi confirmada oficialmente pela Câmara dos Deputados do Paraguai. Ao todo, 35 parlamentares assinaram o pedido de julgamento político contra Peña, enquanto uma iniciativa semelhante também foi apresentada contra o vice-presidente Pedro Alliana. Os documentos apontam cinco possíveis irregularidades, entre elas conflito de interesses, manipulação regulatória, favorecimento de empresas ligadas ao grupo financeiro, suspeitas de enriquecimento ilícito e comprometimento da confiança no sistema bancário. O pedido ainda precisa superar as etapas previstas na Constituição paraguaia para avançar.



