A vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), pode trazer dificuldades para o senador Flávio Bolsonaro (PL) em relação à sua permanência no país. Com a conquista da maioria na Câmara dos Representantes e no Senado, a oposição ao presidente Donald Trump passa a ter mais instrumentos para fiscalizar o governo e questionar decisões envolvendo a entrada do parlamentar brasileiro em território americano.
A avaliação foi apresentada pelo analista de Política Pedro Venceslau, durante o programa CNN 360º, nesta quarta-feira (4). Segundo ele, o novo cenário político reduz as possibilidades de Trump adotar medidas que beneficiem Flávio, especialmente diante das críticas de parlamentares democratas à concessão de vistos ao senador e seus familiares.
Mesmo antes do resultado eleitoral, a permanência dos integrantes da família Bolsonaro nos Estados Unidos já era alvo de questionamentos. A hashtag #DeportTheBolsonaros chegou a ganhar destaque nas redes sociais, enquanto parlamentares americanos cobravam explicações da administração Trump sobre as circunstâncias da viagem de Flávio ao país.
A mudança no Congresso, entretanto, não significa que os democratas possam determinar diretamente a deportação do senador ou cancelar seus documentos migratórios. A concessão e a revogação de vistos são atribuições do Poder Executivo americano. Ainda assim, a nova maioria poderá ampliar a pressão política sobre a Casa Branca e solicitar investigações sobre uma eventual participação de autoridades americanas na saída de Flávio do Brasil.
O parlamentar chegou aos Estados Unidos acompanhado da esposa e das duas filhas, depois de deixar o território brasileiro em meio a questionamentos judiciais relacionados à entrega de seus passaportes. A autorização para sua entrada no país foi justificada pelo governo Trump com argumentos humanitários, mas a explicação também passou a ser contestada por representantes democratas.
Menos influência política e perda de interlocução
O professor de Relações Internacionais Laerte Apolinário, da PUC-SP e da FAAP, avalia que a vitória democrata representa um revés para Flávio principalmente pelo momento em que acontece. Segundo ele, o senador e seu irmão, Eduardo Bolsonaro, podem perder parte do acesso político que mantinham no Capitólio, especialmente junto a parlamentares republicanos que comandavam as duas Casas legislativas.
Com os democratas à frente do Congresso, Trump também terá menos liberdade política para avançar em sua agenda. Embora continue responsável por decisões relacionadas a vistos, sanções e tarifas comerciais, o presidente terá de lidar com uma oposição mais fortalecida e disposta a fiscalizar suas ações.
Na avaliação de Apolinário, esse cenário pode levar Trump a adotar uma postura mais pragmática nas relações com o governo brasileiro de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), reduzindo o espaço de integrantes da ala ideológica de sua administração, entre eles o secretário de Estado Marco Rubio.
Com isso, Flávio Bolsonaro também pode perder relevância como interlocutor político e diplomático do governo americano.
O que pode acontecer daqui para frente?
A vitória democrata amplia a possibilidade de investigações e questionamentos sobre a atuação da Casa Branca no caso Flávio Bolsonaro. No entanto, não representa uma ordem de deportação nem provoca automaticamente qualquer alteração em sua situação migratória.
O principal impacto, neste momento, é político: a administração Trump terá de enfrentar uma fiscalização mais intensa sobre suas decisões, inclusive aquelas relacionadas ao senador brasileiro.
A mudança na composição do Congresso americano deverá se concretizar com a posse dos novos parlamentares, em janeiro de 2027.


