A alta do dólar registrada após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acendeu um alerta no mercado financeiro e aumentou a preocupação com a inflação dos alimentos no Brasil. A valorização da moeda americana já começou a influenciar as cotações de produtos agrícolas e pode chegar ao bolso dos consumidores caso o câmbio permaneça pressionado.
Na semana seguinte ao segundo turno das eleições, realizado em 25 de outubro, o dólar acumulou valorização de aproximadamente 9,2%, chegando a R$ 5,486 na terça-feira (3), maior cotação desde dezembro de 2025.
O movimento foi associado à reação de investidores diante das incertezas sobre a condução da política econômica do próximo período de governo, especialmente em relação ao equilíbrio das contas públicas e à trajetória da dívida brasileira.
Nesta quarta-feira (4), a moeda americana abriu em queda, acompanhando o enfraquecimento do dólar no mercado internacional. Apesar do recuo inicial, os efeitos da valorização acumulada nos últimos dias continuam no radar dos economistas.
Alimentos podem ficar mais caros
A desvalorização do real interfere diretamente no mercado agrícola porque diversos produtos brasileiros são negociados internacionalmente em dólar. Quando a moeda americana sobe, os produtores passam a ter maior incentivo para comercializar suas mercadorias no exterior, o que pode reduzir a oferta no mercado interno e pressionar os preços.
Entre os produtos que já registraram valorização estão soja, milho, açúcar, trigo e café.
Na última semana de outubro, a soja subiu 3,9% e o milho avançou 3%. O açúcar cristal registrou aumento de 2,3%, enquanto o trigo teve alta de 2,2% no Rio Grande do Sul. No mercado de café, o robusta avançou 4,1% e o arábica, 0,6%.
O impacto também pode alcançar o preço das carnes. Isso porque soja e milho são utilizados na fabricação de ração animal. Com o aumento desses insumos, os custos de produção de aves, suínos e bovinos podem subir, criando pressão adicional sobre os preços ao consumidor.
Inflação preocupa mercado financeiro
Além do câmbio, fatores climáticos também aumentam a preocupação com o custo dos alimentos. A possibilidade de efeitos mais intensos do fenômeno El Niño pode prejudicar lavouras em diferentes regiões do país, interferindo na oferta de produtos agrícolas.
O cenário já aparece nas projeções econômicas. No Boletim Focus divulgado após a reeleição de Lula, economistas elevaram a estimativa de inflação para 2027, com previsão de 4,76% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), acima do teto da meta estabelecida pelo Banco Central.
O economista Fábio Romão, da consultoria 4intelligence, avalia que a alta do dólar pode influenciar diferentes setores da economia, especialmente combustíveis, alimentos e produtos que dependem de insumos importados.
Especialistas ressaltam, porém, que o repasse da valorização cambial aos preços não acontece imediatamente. A intensidade do impacto dependerá de quanto tempo a moeda permanecer em patamar elevado, além das condições de oferta, produção e comercialização.
Consumidor pode sentir impacto nos próximos meses
A combinação entre câmbio pressionado, custos de produção e riscos climáticos pode dificultar a desaceleração da inflação nos próximos meses.
O comportamento do dólar também será influenciado pelas sinalizações do governo sobre a política fiscal e pelas decisões do Banco Central em relação à taxa básica de juros.
Para os consumidores, a principal preocupação é que o aumento dos custos no campo e na cadeia de distribuição seja repassado gradualmente aos supermercados, atingindo produtos presentes no cotidiano das famílias brasileiras.
Embora ainda não exista garantia de que todos esses aumentos chegarão às prateleiras, economistas alertam que a permanência do dólar em níveis elevados amplia o risco de pressão sobre o preço da alimentação.



