O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, teria participado de uma festa em uma lancha no Lago Paranoá, em Brasília, com empresários ligados à Precisa Medicamentos e três garotas de programa levadas de São Paulo. O episódio teria ocorrido em 17 de julho de 2020, durante a pandemia de Covid-19, segundo reportagem publicada pela revista piauí na quarta-feira (21).
De acordo com a publicação, o encontro foi organizado pelos empresários Danilo Berndt Trento e Francisco Maximiano, ligados à empresa que atuava nas negociações para fornecer ao governo federal a vacina Covaxin, desenvolvida pelo laboratório indiano Bharat Biotech. A festa teria sido planejada para estreitar relações com integrantes da família do então presidente Jair Bolsonaro.
Na ocasião, o Brasil enfrentava um dos períodos mais graves da crise sanitária. Na véspera do encontro, o país registrou 1.299 mortes por Covid-19 em 24 horas, elevando o total de vítimas da doença para 76.822.
A reportagem reconstituiu o episódio a partir de relatos de pessoas ouvidas, documentos relacionados a investigações parlamentares e registros de voos. As informações divulgadas colocam o encontro no contexto das articulações empresariais para ampliar o acesso ao governo federal durante as negociações envolvendo vacinas contra o coronavírus.
Jatinho levou empresários e três mulheres de São Paulo a Brasília
Segundo a apuração da piauí, um jatinho Embraer Phenom 300, de prefixo PR-SAD, decolou do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, na noite de 16 de julho de 2020, com destino a Brasília. A aeronave transportava Trento, Maximiano, o agente de viagens Raphael Barão e três garotas de programa.
O avião pousou na capital federal às 22h12. Depois, os passageiros seguiram para o hotel Meliá Brasil 21, localizado no Setor Hoteleiro Sul.
Na manhã seguinte, a confraternização teria ocorrido em uma lancha de aproximadamente 20 metros, equipada com cabine. Flávio Bolsonaro teria chegado acompanhado de Alexandre Santini, amigo e então sócio do senador em uma franquia da rede de chocolates Kopenhagen.
De acordo com a reportagem, o evento contou com bebidas alcoólicas e petiscos. A presença das três mulheres fazia parte da organização do encontro, que teria sido articulado pelos empresários para agradar ao parlamentar.
A publicação também relata que, ao final da confraternização, Flávio teria recebido um relógio Rolex de presente de um dos empresários.
Empresários negociavam fornecimento da vacina Covaxin
A aproximação com o senador ocorreu enquanto a Precisa Medicamentos buscava viabilizar negócios relacionados à Covaxin com o governo federal. A empresa dizia representar no Brasil o laboratório indiano Bharat Biotech, responsável pelo desenvolvimento do imunizante.
Naquele período, a Precisa já mantinha relações comerciais com o governo federal e fornecia produtos como testes rápidos para Covid-19. A negociação da vacina, contudo, acabaria envolvida em questionamentos sobre possíveis irregularidades.
O contrato para a compra da Covaxin previa o pagamento de R$ 1,6 bilhão por 20 milhões de doses. A negociação foi suspensa em 2021, após denúncias sobre possíveis irregularidades no processo de contratação e relatos de pressão sobre servidores do Ministério da Saúde.
O caso foi investigado pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, no Senado. Durante os trabalhos, Flávio Bolsonaro saiu em defesa da Precisa e elogiou publicamente a atuação de uma representante da empresa.
A reportagem da piauí relaciona a festa na lancha ao contexto dessas negociações e à tentativa dos empresários de ampliar sua proximidade com integrantes do governo Jair Bolsonaro.
Alexandre Santini também aparece no caso das rachadinhas
Alexandre Santini, que teria acompanhado Flávio Bolsonaro no passeio, também foi citado em investigações relacionadas à loja de chocolates da qual era sócio do senador.
O estabelecimento entrou no radar das autoridades durante a apuração de um suposto esquema de rachadinha na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). A investigação envolvia suspeitas de que parte dos salários de assessores parlamentares ligados ao então deputado estadual Flávio Bolsonaro era devolvida ao grupo político.
O Ministério Público do Rio de Janeiro apontou suspeitas de que a franquia da Kopenhagen teria sido utilizada para lavar recursos supostamente desviados. A investigação também envolveu Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio.
Entretanto, o caso sofreu reveses judiciais, com anulações de provas e decisões que comprometeram o andamento das apurações. Flávio Bolsonaro não foi condenado nesse processo.
Flávio Bolsonaro e empresários não haviam se manifestado
A divulgação da reportagem reacendeu questionamentos sobre as relações entre o senador, empresários interessados em contratos públicos e pessoas envolvidas em negociações com o governo federal durante a pandemia.
Até a publicação das informações consultadas, Flávio Bolsonaro não havia comentado o conteúdo da reportagem. Danilo Trento e Francisco Maximiano também não tinham se manifestado, segundo as notícias divulgadas sobre o caso.



