quinta-feira, 5 de novembro
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A crise política no Paraguai se agravou nesta quinta-feira (5), após aliados do presidente Santiago Peña retirarem o apoio ao governo e passarem a defender sua saída do cargo. O Congresso Nacional iniciou uma sessão extraordinária para discutir a abertura de um processo de impeachment contra o chefe do Executivo, em meio às repercussões do colapso do banco digital Ueno.

A movimentação representa um duro golpe para Peña, que assumiu a Presidência em 2023. A iniciativa, inicialmente impulsionada por parlamentares da oposição, ganhou força depois que importantes lideranças do Partido Colorado, que integra a base governista, também passaram a demonstrar resistência ao presidente.

O pedido de impeachment foi apresentado por 35 deputados, que acusam Peña de conflito de interesses, irregularidades envolvendo recursos previdenciários, manipulação de regras e possível encobrimento de problemas por parte do Banco Central paraguaio.

A crise teve início após a intervenção do Banco Central no Ueno Bank, uma das principais instituições financeiras digitais do país. A medida foi anunciada na terça-feira (3), depois que a autoridade monetária identificou problemas graves de solvência, relacionados, entre outros fatores, a empréstimos concedidos a empresas ligadas ao grupo controlador da instituição.

O fechamento das operações deixou aproximadamente três milhões de clientes sem acesso às contas e aos recursos depositados. O banco também administrava cerca de US$ 850 milhões em depósitos de órgãos públicos, incluindo valores vinculados ao Instituto de Previdência Social.

A situação ganhou dimensão política porque Santiago Peña foi acionista do Grupo Vázquez, controlador do Ueno, até março de 2025. A ligação do presidente com o conglomerado passou a ser um dos principais argumentos utilizados pelos parlamentares que defendem seu afastamento.

Durante a sessão no Congresso, a deputada oposicionista Rocío Vallejo fez duras críticas ao presidente e responsabilizou sua gestão pelos prejuízos enfrentados pelos correntistas.

O pedido de impeachment precisa alcançar o apoio de dois terços dos parlamentares presentes para avançar. A retirada do respaldo de importantes integrantes da base governista, entretanto, aumentou a pressão sobre Peña e tornou o cenário político ainda mais delicado.

Investigação e reação do governo

As consequências da crise também chegaram ao Banco Central. O presidente da autoridade monetária, Carlos Carvallo, deixou o cargo após a repercussão do caso. O episódio ainda resultou na abertura de investigações contra dirigentes do Ueno.

O Ministério Público determinou a prisão de executivos ligados à instituição, incluindo integrantes da alta administração. Ao todo, 27 pessoas foram formalmente acusadas, e a Justiça determinou o bloqueio de bens dos investigados.

Peña afirmou, por meio das redes sociais, que todos os responsáveis por eventuais irregularidades deverão responder à Justiça, independentemente de sua posição ou influência política.

O presidente também promulgou uma lei destinada a acelerar a devolução dos recursos aos clientes prejudicados e pediu que as lideranças políticas priorizem os interesses dos depositantes.

Enquanto isso, relatos de instabilidade nos aplicativos de outras instituições financeiras aumentaram o temor entre os paraguaios e provocaram uma corrida de clientes em busca de alternativas para movimentar suas economias.

A Associação de Bancos do Paraguai informou que as instituições estavam trabalhando para absorver o aumento na procura de clientes que pretendiam transferir seus recursos do Ueno. A entidade, porém, afirmou que o restante do sistema financeiro continuava operando normalmente.

Com o avanço das discussões sobre o impeachment e a perda de apoio entre antigos aliados, Santiago Peña enfrenta um dos momentos mais delicados de seu governo.