A contaminação química da praia de São Tomé de Paripe, no Subúrbio Ferroviário de Salvador, completa nove meses em novembro de 2026, sem que a população tenha recebido uma solução definitiva para o problema ambiental. Mesmo com a área interditada para banho, moradores denunciam a falta de sinalização adequada e de barreiras que impeçam o acesso de frequentadores aos trechos contaminados.
O problema, que envolve a presença de nitrato e cobre na água e na areia, continua comprometendo a rotina de centenas de famílias que dependem da pesca, da mariscagem e do comércio na região. Pescadores, marisqueiros, barraqueiros e trabalhadores informais permanecem impedidos de exercer normalmente suas atividades, acumulando prejuízos desde o início da ocorrência.
As investigações do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) identificaram a origem da contaminação em atividades relacionadas ao Terminal Itapuã, estrutura utilizada para armazenamento e movimentação de granéis sólidos. O órgão ambiental apontou responsabilidades envolvendo a Intermarítima, antiga operadora do terminal, e a Gerdau, que administrou as operações durante aproximadamente 30 anos.
A gravidade do caso também mobilizou autoridades estaduais e federais. Em junho, o Governo Federal reconheceu a situação de emergência em Salvador em decorrência dos impactos ambientais. Dois meses depois, a Prefeitura prorrogou o decreto por mais 90 dias, diante da continuidade dos prejuízos sociais e ambientais.
Protesto cobra indenizações e bloqueia estrada
A falta de pagamento das indenizações voltou a provocar revolta na comunidade. Na terça-feira (3), moradores, pescadores e marisqueiros realizaram um protesto nas proximidades da Base Naval de Aratu, em São Tomé de Paripe.
Durante a manifestação, os participantes bloquearam a passagem de ônibus, carros e motocicletas. O trânsito chegou a ficar comprometido, mas foi normalizado após o encerramento do ato.
De acordo com representantes da comunidade, aproximadamente 950 pessoas foram prejudicadas pela contaminação. Os manifestantes afirmam que, apesar das reuniões e das promessas de reparação financeira, nenhum pagamento foi realizado até o momento.
A mobilização também expôs a situação de vulnerabilidade das famílias que dependem diretamente dos recursos naturais da região. Sem poder pescar, coletar mariscos ou trabalhar nas barracas instaladas na praia, muitos moradores relatam dificuldades para garantir o próprio sustento.
Empresas foram multadas em R$ 70 milhões
Em junho, o Inema aplicou multas que somam R$ 70 milhões às empresas investigadas. A Gerdau recebeu uma autuação de R$ 50 milhões, enquanto a Intermarítima foi multada em R$ 20 milhões.
O órgão ambiental atribuiu às duas companhias participação no cenário de contaminação, relacionado às atividades de armazenamento e movimentação de granéis sólidos no terminal marítimo.
Em agosto, a Justiça Federal determinou o bloqueio de aproximadamente R$ 387,6 milhões em bens das empresas investigadas. A medida foi solicitada pela Polícia Federal no âmbito da Operação Mar Vivo e tem como objetivo preservar recursos para uma eventual reparação dos danos ambientais.
Segundo a perícia federal, o valor corresponde à estimativa mínima necessária para executar ações de contenção, descontaminação e recuperação da área atingida. A investigação também identificou indícios de contaminação do solo, das águas subterrâneas, da faixa de areia e do ambiente marinho.
Tentativa de acordo não resultou em pagamento
Em setembro, representantes de órgãos estaduais e federais, incluindo o Ministério Público da Bahia (MP-BA) e o Ministério Público Federal (MPF), se reuniram com representantes da Gerdau para discutir medidas de reparação.
Entre os encaminhamentos estava a elaboração de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), que poderia estabelecer compromissos financeiros e outras medidas de assistência às famílias prejudicadas.
Entretanto, segundo os moradores, o acordo ainda não resultou no depósito dos valores esperados. A discussão sobre a responsabilidade pelos danos também permanece como um dos principais obstáculos para a definição de uma solução coletiva.
Até o momento, uma decisão judicial garantiu a um pescador da região o pagamento de R$ 2 mil mensais pela Intermarítima, em caráter provisório, como auxílio financeiro pela impossibilidade de exercer sua atividade profissional.
O que dizem as empresas e os órgãos públicos
Em manifestação anterior, a Gerdau informou que mantém diálogo com autoridades e instituições envolvidas para construir uma solução social e técnico-ambiental para a região. A companhia também declarou que pretende colaborar com medidas de apoio à população e com a recuperação da normalidade.
A Intermarítima, por sua vez, já afirmou que não movimenta cargas relacionadas às substâncias encontradas na praia. A empresa também é apontada nas investigações sobre as atividades realizadas no terminal.
O Inema informou que continua acompanhando a situação e fiscalizando o cumprimento das medidas ambientais determinadas. O órgão também recomendou a restrição de acesso e de atividades de contato primário no trecho investigado.
A Prefeitura de Salvador, por sua vez, informou que vem adotando medidas emergenciais de assistência social às famílias atingidas, incluindo ações de apoio e encaminhamento para a rede de proteção social.
Confira a cronologia da contaminação em São Tomé de Paripe
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Fevereiro de 2026 – Primeiras denúncias
Moradores identificam líquidos de coloração azulada e amarelada na praia. O Inema inicia inspeções e coleta amostras de água, areia e outros materiais para análise.
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Março de 2026 – Interdição da praia
Após a identificação de concentrações elevadas de nitrato e cobre, o trecho afetado passa a ter restrições de acesso, banho e atividades de contato com a água.
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Abril de 2026 – Mortandade de peixes
O episódio ganha repercussão após registros de peixes mortos e denúncias de pescadores e marisqueiros. A contaminação também passa a ser debatida na Câmara Municipal de Salvador.
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Junho de 2026 – Multas e emergência
O Inema aplica R$ 70 milhões em multas às empresas investigadas. O Governo Federal reconhece a situação de emergência em Salvador.
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Julho de 2026 – Investigação federal
O caso avança nas investigações sobre os impactos ambientais e sociais, incluindo os prejuízos às comunidades pesqueiras e tradicionais.
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Agosto de 2026 – Bloqueio milionário
A Justiça Federal determina o bloqueio de aproximadamente R$ 387,6 milhões em bens das empresas investigadas. A Prefeitura prorroga por mais 90 dias a situação de emergência.
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Setembro de 2026 – Discussão sobre indenizações
Representantes do poder público e da Gerdau discutem a elaboração de um acordo para estabelecer medidas de reparação e assistência financeira às famílias.
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Novembro de 2026 – Novo protesto
Moradores, pescadores e marisqueiros bloqueiam uma via próxima à Base Naval de Aratu para cobrar indenizações e providências para a recuperação da praia.
Nove meses depois das primeiras denúncias, São Tomé de Paripe continua convivendo com os efeitos de um problema ambiental que compromete o ecossistema, a atividade econômica e a qualidade de vida da população. Enquanto as investigações e as discussões sobre responsabilidades prosseguem, os trabalhadores aguardam uma solução que permita recuperar a praia e retomar suas atividades com segurança.



